Revolver: Fim das turnês e início da fase psicodélica

O mundo não era mais o mesmo no ano de 1966 e os Beatles faziam parte de toda aquela revolução. Em meio a todos os acontecimentos políticos e culturais que o mundo assistia, o álbum seguinte a Rubber Soul dava continuidade, agora de forma muito mais madura e confiante, a uma nova fase da banda, abusando do experimentalismo e influenciado pelas mais diversas vertentes culturais.

Por falta de um bom roteiro, a banda se recusou a gravar um novo filme. Ao invés disso, os Beatles tiraram as merecidas férias, depois de tanto agito. Com mais tempo, a banda pode trabalhar mais em estúdio, conhecendo e experimentando mais dos recursos que a época fornecia. Quando caíram na estrada e iniciaram uma nova turnê, a insatisfação era evidente. Estava impossível mostrar no palco o quanto a banda estava evoluindo em estúdio.

Depois de Rubber Soul, estava claro que os Beatles preparariam algo ainda mais inovador. Aqueles quatro rapazes haviam crescido muito em apenas três anos, de forma que a música da banda estava refletindo cada vez mais a personalidade de cada um.

De 6 de Abril a 21 de Junho de 1966, a banda produziu o novo disco, que trazia em suas composições, várias referências políticas e sociais. As experiências com drogas ficavam evidentes na maioria das composições, não só pelas letras, mas pelos arranjos inovadores. Em 14 faixas (todas de autoria da banda), os Beatles provaram o que parecia impossível: Superar o que os próprios Beatles haviam feito até então.

Taxman – (Harrison)
Gravação: 21, 22 de abril e 16 de maio de 1966

George abre o disco com uma canção-protesto, falando sobre a cobrança de impostos. Segundo a letra, até pra morrer é preciso pagar ao governo. O “Mr. Wilson” citado na canção era Harold Wilson, Primeiro Ministro Inglês do Partido Trabalhista. E “Mr. Heath”, era Edward Heath, líder da oposição do Partido Conservador. Na época, os Beatles estavam assustados e inconformados com as altas taxas cobradas sobre tudo que eles faturavam. Apesar de ser uma canção da década de 60, ainda hoje é muito atual. Não só pela letra, mas também pelos arranjos muito vigorosos. Paul se destaca, tocando contra-baixo e guitarra solo.

Eleanor Rigby – (Lennon/McCartney)
Gravação: 28, 29 de abril e 06 de junho de 1966

A cada disco, Paul nos surpreende com uma belíssima balada. Repetindo o feito de Yesterday, somente ele participa da gravação, acompanhado por 8 músicos de estúdio que executam o incrível arranjo de George Martin. Paul McCartney diz que a inspiração pra canção surgiu da vitrine de uma loja chamada “Daisy Hawkins”; mas alguns anos mais tarde, foi encontrado um túmulo onde uma mulher chamada Eleanor Rigby havia sido enterrada. Curiosamente, ele e John costumavam passar por este cemitério, mas Paul garante que não se lembrava desse detalhe.

I’m Only Sleeping  – (Lennon/McCartney)
Gravação: 27, 29 abril, 05 e 06 de maio de 1966

A composição de John é uma das provas do experimentalismo que a banda estava desenvolvendo. Guitarras foram colocadas ao contrário. Ou seja, após gravar o instrumento, a fita foi incluída de trás para frente; transformando a canção em uma das mais psicodélicas gravações. Outro detalhe está na gravação da voz de John, que foi acelerada, ganhando uma nova característica.

Love You To – (Harrison)
Gravação: 11 e 13 de abril de 1966

Outra canção de George. Desta vez, mostrando seu amor pela cultura oriental. Só ele participou da gravação, cantando e tocando cítara, acompanhado pelo músico indiano Anil Bhagwat, que toca tabla. A belíssima canção influenciou várias outras bandas que passaram a acrescentar instrumentos indianos às suas gravações.

Here, There and Everywhere – (Lennon/ McCartney)
Gravação: 14, 16 e 17 de junho de 1966

Uma das mais lindas canções dos Beatles. Composta por Paul, que faz a voz principal. John e George fazem os belos vocais que dão o charme à canção.

Yellow Submarine – (Lennon/ McCartney)
Gravação: 26 de maio e 01 de junho de 1966

Composição de John e Paul, feita exclusivamente para Ringo cantar. A gravação ainda contou com diversos “overdubs”, incluindo os sons de orquestras, ondas do mar e falas que complementam a música. No coro final, George Martin, Neil Aspinall, Mal Evans e Geoff Emerick se juntam aos Beatles. Anos mais tarde, esta música ainda seria tema do psicodélico desenho animado da banda.

She Said She Said – (Lennon/McCartney)
Gravação: 21 de Junho de 1966

Mais uma composição de John sobre o uso de drogas. Inicialmente, a canção se chamava “He Said He Said” e foi baseada no comentário do ator Peter Fonda, que após tomar LSD, falou “Eu sei como é estar morto”. Depois de uma discussão com John Lennon, Paul saiu do estúdio, abandonando a sessão de gravação e levando George Harrison a tocar contra-baixo na canção. Após as gravações, George ainda não estava satisfeito com as guitarras e decidiu gravar mais uma. O problema é que não havia mais canais disponíveis para gravação e a única solução encontrada foi gravar no mesmo canal de outra guitarra que já estava gravada. Porém, o engenheiro de gravação, Geoff Emerick alertou George Harrison que se houvesse o menor erro, tudo que havia sido gravado naquele canal estaria perdido. George disse: “Pois eu não vou errar!” e ao final da gravação brincou: “Não falei que não ia errar?”.

Good Day Sunshine – (Lennon/McCartney)
Gravação: 08 e 09 de junho de 1966

Composição de Paul, que também toca piano na gravação. Esse piano teve sua velocidade alterada, para obter o efeito desejado.

And Your Bird Can Sing – (Lennon/McCartney)
Gravação: 26 de abril de 1966

Por incrível que pareça, John nunca gostou dessa sua composição. Seu vocal principal é acompanhado pelos backing vocals de Paul e George.

For No One – (Lennon/McCartney)
Gravação: 09, 16 e19 de maio de 1966

Balada de Paul McCartney para sua namorada, Jane Asher. Inicialmente se chamaria “What Did I Die?”. Paul é acompanhado somente por Ringo na bateria e um músico chamado Alan Civil, que tocava da Orquestra Filarmônica de Londres, tocando “French Horn”, uma espécie de trompa. Paul, além de cantar, toca contra-baixo, piano e cravo.

Dr. Robert – (Lennon/McCartney)
Gravação: 17 e 19 de abril de 1966

Composição de John com uma ajuda de Paul. A letra fala de um “doutor” que receitava pílulas para os clientes se sentirem melhor. Imagina-se que a canção seja inspirada no doutor Robert Freymann, que receitava anfetamina para alguns artistas. Outros garantes que se trata do físico americano, Dr. Charles Roberts ou até mesmo o músico Bob Dylan, já que seu nome verdadeiro é Robert Zimmerman. Mas John desconversava e dizia que o “Robert” da canção era ele mesmo: “Eu era o único que carregava todas as pílulas nas excursões…”

I Want To Tell You – (Harrison)
Gravação: 02 e 03 de junho de 1966

George emplaca sua 3ª canção no disco. Paul toca o piano que deixa a música ainda mais marcante. A música fala da velocidade do pensamento em relação à lentidão da fala e da escrita. George se mostra cada vez mais maduro como compositor.

Got To Get You Into My Life – (Lennon/McCartney)
Gravação: 08 ,11 de abril, 18 de maio e 17 de junho de 1966

Composição de Paul, totalmente inspirada na música negra dos anos 60. Os músicos Ian Hammer, Les Cordon, Eddie Thornton, Alan Branscombe e Peter Coe tocam os instrumentos de sopro na canção feita em “homenagem” à maconha.

Tomorrow Never Knows – (Lennon/McCartney)
Gravação: 06, 07 e 22 de abril de 1966

A última canção do disco foi a primeira a ser gravada e é a mais experimental do álbum. Inicialmente chamada de “The Void”, em seguida de “Mark I”, até John decidiu finalmente usar mais uma das frases de Ringo: “Amanhã nunca se sabe”. Trata-se de uma colagem de sons que acompanha a bateria de Ringo e instrumentos que formam uma base somente no acorde de Dó Maior. A letra foi inspirada no “Livro Tibetano dos Mortos” de Timothy Leary. John e Paul estavam fascinados por colagens de sons, feitas a partir de fitas de gravação, que eram misturadas aleatoriamente e emendadas uma a uma. O “efeito” no vocal de John foi produzido a partir de um speaker “Leslie”, servindo como um filtro e modificando o timbre de sua voz. Isso, segundo John, era para parecer como um monge falando do alto de um monte. O resultado é uma das canções mais psicodélicas e revolucionárias dos Beatles.

O disco se chamaria originalmente de “Abracadabra”, mas logo descartaram e aprovaram o novo título: “Revolver”; que nada tem a ver com a arma e sim com o movimento de um disco. A arte da capa foi produzida por Klaus Voorman, o amigo dos Beatles desde a época de Hamburgo e que anos mais tarde viria a ser o baixista de John, George e Ringo em alguns discos de carreira solo.

Revolver foi lançado na Inglaterra em 05 de agosto de 1966 e nos Estados Unidos em 08 de agosto de 1966. O disco chegou ao topo das paradas britânicas em 10 de agosto e permaneceu por 7 semanas.

O ano de 1966 se mostrava decisivo na carreira da banda. Foram 10 indicações ao Grammy e três troféus Ivor Novello (premiação máxima da música britânica), pelas canções lançadas no ano anterior.

Em março, os Beatles foram entrevistados pela jornalista Maureen Cleave, que trabalhava no jornal britânico “London Evening Standart”. Nesta entrevista, John fez a polêmica declaração de que o cristianismo acabaria mais cedo ou mais tarde e que os Beatles eram mais famosos que Cristo. Esta declaração não chegou a causar polêmica na Inglaterra, já que todos entenderam que John não estava se julgando superior ao cristianismo, apenas disse que via a religião como algo que estava perdendo a força. Porém, nos Estados Unidos a frase foi citada fora de contexto e incompreendida pela maioria das pessoas que passaram a queimar discos da banda em praça pública e criar movimentos “anti-Beatles” como forma de protesto. Algumas rádios passaram a boicotar as canções dos Beatles e em pouco tempo alguns países da Europa também protestavam contra a declaração incompreendida de John Lennon.

Não sendo o suficiente, a banda ainda passou por sérios problemas políticos nas Filipinas e após o lançamento de Revolver, os Beatles chegaram à conclusão de que as turnês estavam impedindo o crescimento da banda. Toda a tensão causada por problemas políticos e culturais, a falta de segurança e de estrutura em que eles eram submetidos e os problemas técnicos que não permitiam uma boa performance ao vivo, fizeram a banda anunciar o fim das turnês. Em 29 de agosto, logo após o lançamento de Revolver, os Beatles se apresentam pela última vez, em um show no Candelstick Park, em San Francisco.

A partir dessa data, os Beatles passaram a se dedicar somente às gravações em estúdio; podendo abusar ao máximo dos recursos técnicos e da criatividade do grupo. O papel de George Martin se tornaria ainda mais importante, já que era ele quem colocava em prática tudo aquilo que os Beatles imaginavam e muitas vezes só Martin compreendia. Era o ápice de uma revolução cultural que ainda hoje inspira artistas ao redor do mundo.

Leia análises anteriores:

– Rubber Soul

– Help!

– Beatles For Sale

Por Edcarlos da Silva

11 Respostas para “Revolver: Fim das turnês e início da fase psicodélica

  1. Ótima matéria Ed, muito completa, como sempre. Parabéns!

  2. linda materia *-*

  3. muito muito muito bom, completíssimo, muito bem escrito e ilustrado (: tá de parabéns, Ed ^^

  4. Esperei o dia todo pra ler a matéria sobre o Revolver e valeu a espera. Tá muito detalhada e interessantíssima. Parabéns, meu caro!

  5. Adorei a matéria e adoro esse disco, meu preferido depois do Abbey Road

  6. Vitória Sampaio

    George é FODA! Paul estava errado quando disse que não se pode ter tudo. Pois George sabe escrever canções de amor e de protesto. Iaí Paul, vai encarar? hahahahah…

  7. Vou fingir que não li a babaquice acima.

  8. haha.. eu tenho, eu tenho
    amuu Revolver

  9. Fiquei mais de um mês sem tocar meu box remasterizado. Deu até vontade de ouvir ao ler esse texto tão detalhado. Revolver é um dos meus preferidos. Genial. Na boa? Beatles de 66 em diante é a minha fase preferida. Curto a Beatlemania, mas igual a segunda fase, não há.

  10. Muiiito boa a matéria!
    Completa e me ajudou muito num trabalho😉
    Sou fã dos Beatles e agora fã do blog🙂
    Parabéns!!

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