O fim (ou começo) de um sonho

O #beatlesart de hoje lança mais um estilo de arte Beatle: a palavra escrita. Em “Revolution”, a Tamires conseguiu recontar os últimos momento de John Lennon de forma simples, mas bela e intimista. Vale a pena, mesmo se conhecer todos os fatos de cabo a rabo, observar a forma como ela narra a morte de um dos maiores ídolos do Rock and Roll. Have fun!

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Revolution

Por Tamires Paulino

@TamiresP

Oito de dezembro de 1980, segunda-feira. O homem cujo nome de batismo é John Winston Lennon, e que mais tarde passou a se chamar John Ono Lennon, levantou-se de sua cama. Ele aparentava felicidade, afinal, aquele era o quarto ano em que podia morar nos Estados Unidos e fazer o que bem entendesse. Porém, o cansaço para conseguir aquele cartão de residência, de número A17-597-21, tinha sido tão grande que ele só quis fazer nada. Aliás, nada, não. Como disse em entrevistas, ele andou “fazendo pão e cuidando do bebê”. E não se assuste, afinal, “toda dona-de-casa sabe que bebês e pães são um trabalho de tempo integral”.

Aliás, John agora era um bom pai. Ele já tinha um filho, Julian, mas nunca lhe deu a atenção que ele necessitava e merecia. Porém, prometeu a si mesmo que com Sean, o bebê de que ele vinha cuidando enquanto fazia pães, seria diferente. E como seria.

Ele então caminhou até o quarto de Sean. Aquela criança, de cinco anos, havia lhe pedido que voltasse a gravar e assim ele faria. Verificou que seu filho dormia e estava bem, com isso, sentiu-se revigorado. Aquele pequeno “pedaço” de si era o único capaz de fazê-lo sentir-se “maior que o Empire State”.

No quarto ao lado, na cama de John, estava Yoko Ono, a artista plástica japonesa, esposa de Lennon. Ela também estava muito feliz, afinal, aquele dia seria de muito trabalho para ela e seu marido.
Tomaram café da manhã, leram os jornais, cuidaram de Sean. Tudo isso até a fatídica tarde daquele oito de dezembro.

Aquele dia estava reservado para uma sessão de gravações. Yoko e John saíram à tardinha do edifício Dakota, em Nova Iorque, onde moravam. Eles estavam acostumados com os fãs que os aguardavam na frente do prédio a cada entrada ou saída e procuravam, na medida do possível, ser gentis com cada um deles.

Sabendo disso, um rapaz de 25 anos se aproximou de John e lhe pediu um autógrafo, sendo prontamente atendido. Yoko e Lennon, então, entraram na Limousine branca que os aguardava para levá-los ao estúdio de gravação. O rapaz continuou lá, o que não era estranho, afinal, ele sabia que Lennon voltaria e ele gostaria de vê-lo mais uma vez.

John e Yoko gravaram tudo o que estava previsto tranquilamente e saíram do estúdio em direção a Limousine. Eles tinham um ar revigorado, algo como “missão cumprida”. Eram quase 23 horas quando chegaram ao Dakota novamente.

John saiu primeiro do carro, seguido de sua esposa. Ele reparou que à frente de seu prédio um fã corajoso ainda o aguardava naquele horário, porém, não ligou. Continuou caminhando com sua esposa até ouvir que alguém chamava o seu nome. Ele então virou-se e olhou.

23 horas, 5 estalos, vidro estilhaçado, passos cambaleantes escada acima. John Lennon havia sido atingido por tiros à queima-roupa disparados por aquele a quem chamavam de Mark David Chapman, um rapaz de 25 anos que tinha em suas mãos um LP, autografado, de John e Yoko, de nome Double Fantasy, um exemplar de “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger, e um revólver de calibre 38.

Lennon, ainda cambaleante, deu vários passos e caiu próximo a Jay Hastings, porteiro do prédio, espalhando pelo chão as fitas cassete da gravação que acabara de fazer com a esposa. Yoko gritava: “John foi baleado, John foi baleado!”, mas Hastings parecia não acreditar. Ele então apertou um alarme que chamava a polícia e correu ao socorro de Lennon. Retirou-lhe os óculos, já que na posição em que John caiu eles pareciam comprimir-lhe a face, e cobriu-lhe com seu paletó azul, de funcionário do Dakota. Reparou que os olhos de John estavam abertos, mas desfocados. Temeu o pior ao perceber que ele acabara de tossir, vomitando sangue e tecidos.

O outro porteiro do prédio entrou no recinto dizendo que Chapman havia largado a arma na calçada. Hastings não pensou duas vezes: correu atrás daquele que tentou tirar a vida não só de um morador do prédio em que trabalhava, mas de seu ídolo. Porém, ele não precisou correr tanto: o criminoso não havia fugido, apenas sentou-se na calçada da próxima rua, de nome West no número 72, e estava lendo o livro que trazia consigo. Ficou ali até que os policiais chegassem e o prendessem.

No interior do Dakota outros policiais avaliavam os ferimentos causados a John. Levantaram-no e colocaram-no em uma das duas viaturas, com auxílio de Hastings, que ouviu ruídos de ossos partidos enquanto o carregava. Depois disso, o porteiro voltou à portaria e disse que aguardaria notícias. Yoko Ono foi para o Roosevelt Hospital na viatura de trás. Ela estava com medo e tentava não pensar no pior.

23 horas, 30 minutos. Oito de dezembro de 1980, segunda-feira. Quatro litros de sangue perdidos depois, John Lennon, 40 anos, pai de dois filhos, ex-marido de Cynthia Powell, atual marido de Yoko Ono e criador da maior banda de todos os tempos, os Beatles, morria no Roosevelt Hospital, ao som de “All My Loving”. O sonho tinha acabado. Ou apenas acabado de começar.

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Se você ainda não enviou seu trabalho, mande já por DM no twitter ou por e-mail: jwresende@hotmail.com

Gostou? Veja também o tênis all-star do Yellow Submarine e os covers da galera.

Por João Resende

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16 Respostas para “O fim (ou começo) de um sonho

  1. muito bom… parabens… clap clap clap!
    me emocionei… e é verdade o sonho naum acabou
    John continua vivo no coração de todos
    vou escolher um deles e fço um desses trabalho adorei a forma que vc capiturou um momento fatidico

  2. óótimooO! muito boom! eu escrevo fics há tempoos, mas agora me inspirei a escrever uma short de Beatles!

  3. Nossa, só posso dizer que tô chorando aqui…
    ficou muito bom, parabéns

  4. Tô chorando aqui, ficou muito bom.

  5. Edcarlos da Silva

    Parabéns, Tamires!!
    Muito bom mesmo.

  6. Ae Tamires, ótimo texto!! Parabéns!! Muito lindo.
    Nossa, ” Morria no Roosevelt Hospital, ao som de “All My Loving”, sério isso? @_@
    Li uma vez que o John não ia volta 23h para casa, ele ia jantar fora com Yoko e depois iria para casa, mas resolveu ir para casa para dar boa noite a Sean antes de ele dormir… aiai…

  7. Geente, muito obrigada!
    Eu fiquei emocionada foi com os comentários de vocês! hahaha
    Gente, fiz vocês chorarem, olha só…
    E, Vitoria, dizem que é verdade sim. Na hora em que o hospital anunciou a morte de John, os alto-falantes estavam tocando “All My Loving”.
    Obrigada a todos!

  8. Tava tocando “all my loving” no pc enquanto eu lia, quase chorei, parabens otimo texto

  9. Cara, parabéns!
    Vc escreve muito bem, tamires!
    Certeza, uns dos melhores beatlesart até hoje!

  10. Até hoje não consigo imaginar que John está morto…Mas ele não está morto né? Eu ainda o sinto muito vivo.

  11. nossa ‘-‘ sério, me emocionei muito aqui, o texto ficou MUITO, MUITO bom, sério, tá de parabéns 😉

  12. Parabéns Tamires, ótimo texto!

  13. Caroline Micaelia

    Texto muito bom, parabéns!!

  14. Lindo texto…

  15. Chorei lendo. Sou uma grande fã dos Beatles, e já vi vários documentários relatando a vida de Lennon… não tem como não se emocionar com este. Afinal, o relatou parecendo estar ali presente. Um texto cativante, lindo.
    Muito emocionante, minhas lágrimas que o diga, rs.

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