O experimentalismo e a sofisticação de Rubber Soul

Desde “Please Please Me”, a cada novo disco, os Beatles se mostravam mais evoluídos e exigentes e aqueles quatro rapazes ingênuos aos poucos iam se transformando em músicos experientes e sofisticados.

O disco “Help!” foi um anúncio de que o rock tomaria novas formas. As letras já se mostravam mais inteligentes, as melodias eram mais elaboradas e as influências da música country e folk se mostravam cada vez mais presentes nos arranjos. Era uma época de mudança na forma de se fazer música.

Enquanto o mundo pensava assim, os Beatles estavam em constante evolução criativa; e agora com mais liberdade, podiam usar os estúdios durante o tempo que quisessem, aproveitando cada vez mais das técnicas de gravação.

Devido à correria das turnês, o novo disco levou aproximadamente um mês para ser produzido, contando ainda com algumas composições da época de “Help!”, mas com uma nova roupagem; mostrando uma nova fase de descobertas, tanto na forma de compor, quanto na maneira de gravar. Em 3 de Dezembro de 1965, chegava às lojas da Inglaterra o disco Rubber Soul, que mais parecia uma coletânea de singles, devido à qualidade das canções, todas de autoria da banda.

Drive My Car – (Lennon/McCartney)
Gravação: 13 de Outubro de 1965

Composição de Paul que além de dividir os vocais principais com John, também toca piano e contra-baixo. Muito bem escolhida para ser a faixa de abertura. Com um ritmo marcante e uma ótima linha de baixo; além da bela execução de George, se aperfeiçoando cada vez mais como guitarrista. Diz a lenda que Paul escreveu uma música que dizia: “I can give you golden rings; I can give you anything.” (“eu posso te comprar um anel de ouro, eu posso te dar qualquer coisa”). John Lennon lembrou que a letra lembrava “Can’t Buy Me Love”. Depois que surgiu “Drive My Car”, Paul confessou: “Na verdade, não entendo de carros. Se tenho que ir a um mecânico, só digo a ele: – Bem… eu acho que não tá muito bom…”

Norwegian Wood (This Bird Has Flown) – (Lennon/McCartney)
Gravação: 21 de Outubro de 1965

Composição de John, com uma pequena ajuda de Paul. A letra fala de um caso que John teve na época em que ainda era casado com Cynthia. George disse que estava procurando um timbre diferente para essa gravação. Não sabia o que usar até que encontrou uma sitar (ou “sítara”) no depósito da EMI. Foi a primeira vez que ele usou o instrumento indiano numa gravação. O gosto pela música e pelos instrumentos indianos pouco depois faria George se aproximar da religião oriental, adotando-a como sua filosofia de vida.

You Won’t See Me – (Lennon/McCartney)
Gravação: 11 de Novembro de 1965

Composição de Paul, que além de cantar e tocar contra-baixo, ainda faz o piano. A letra foi feita para Jane Asher, então namorada de Paul. John faz os backing vocals e toca pandeiro. O órgão Hammond é tocado por Mal Evans.

Nowhere Man – (Lennon/McCartney)
Gravação: 21 e 22 de Outubro de 1965

Composição de John, feita com urgência. Na falta de inspiração para criar a canção, John Lennon se viu como um “homem de lugar nenhum”. Esse foi o primeiro passo para a criação da música. Belíssimo arranjo de 3 vozes, feitas por John, Paul e George, mostrando a nova fase em que a banda estava.

Think for Yourself – (Harrison)
Gravação: 08 de Novembro de 1965

Composição que serviria de ponto de partida para as letras mais filosóficas de George Harrison. Paul McCartney usou seu baixo Rickenbacker com “Fuzz”, dando o som distorcido que marcou a canção.

The Word – (Lennon/McCartney)
Gravação: 10 de Novembro de 1965

Composta por John Lennon com o auxílio de Paul, a canção com um ritmo diferente trata da palavra “Amor” em um conceito universal, sendo adotado pelo movimento Hippie que ainda estava começando a surgir. Mais tarde, John comentou que a letra foi feita sob efeito do uso de maconha. George Martin é quem toca o Harmonium.

Michelle – (Lennon/McCartney)
Gravação: 03 de Novembro de 1965

A notável balada de Paul é a segunda música mais regravada no mundo, ficando atrás de uma outra composição sua, “Yesterday”.

A pedido de John Lennon, Paul resgatou uma composição sua que tinha um toque francês, mas ainda não estava concluída. Ele pediu então uma ajuda à esposa de Ivan Vaugh (o mesmo que havia apresentado Paul a John, em 1957), que era professora de francês.

What Goes On – (Lennon/McCartney/Starkey)
Gravação: 04 de Novembro de 1965

Primeira canção que trás Ringo como um dos compositores. O baterista usou uma antiga composição de John e adaptou ao seu estilo. O country não chega a ser ruim, mas em meio às outras canções do disco, esta ficou quase que esquecida.

Girl – (Lennon/McCartney)
Gravação: 11 de Novembro de 1965

Composição de John que fala sobre uma mulher irreal. Na letra, algumas referências ao cristianismo são mostradas, além da brincadeira de Paul e George, cantando “tit, tit, tit, tit…” nos backing vocals.

I’m Looking Through You – (Lennon/McCartney)
Gravação: 10 e 11 de Novembro de 1965

Outra composição de Paul que fala do abandono de sua namorada, Jane Asher. Paul toca guitarra, além de usar o seu contra-baixo Rickenbacker e Ringo toca o órgão Hammond, além da bateria.

In My Life – (Lennon/McCartney)
Gravação: 18 e 22 de Outubro de 1965

Uma das mais belas músicas dos Beatles, composta em sua maior parte por John Lennon. Paul McCartney diz que ajudou em boa parte da melodia, contrariando John Lennon, que após a separação da banda, disse que fez tudo sozinho. O incrível solo de piano é feito por George Martin, que em 1998 lançou um disco chamado “Im my life”, com Sean Connery regravando a canção.

Wait – (Lennon/McCartney)
Gravação: 17 de Junho e 11 de Novembro de 1965

Composição de John e Paul que começou a ser gravada ainda nas sessões de “Help!”, mas foi deixada de lado para só ser finalizada mais tarde.

If I Needed Someone – (Harrison)
Gravação: 16 e 18 de Outubro de 1965

Outra composição de George, que faz o vocal principal. O riff da guitarra serviu de inspiração para mais tarde compor “Here Comes the Sun”. John e Paul fazem os backing vocals e Geroge Martin toca o Harmonium

Run for Your Life – (Lennon/McCartney)
Gravação: 12 de Outubro de 1965

John Lennon odiava essa sua composição. No Brasil, Renato e Seus Blue Caps fizeram uma versão chamada “Dona do Meu Coração”. George Martin tocou pandeiro na gravação e a primeira frase da canção foi tirada de “Baby Let’s Play House”, de Elvis Presley.

Na capa, os Beatles aparecem em uma foto levemente deformada, mostrando uma mudança de comportamento e uma certa despreocupação com a imagem. Paul estava vendo a sequência de slides com a sessão de fotos, quando uma delas apareceu com o ângulo distorcido. Imediatamente ele falou: “É desse jeito que a foto tem que estar!” e completou: “É isso! Rubber Soul!”. John Lennon dizia que era o “disco da maconha”, porque eles estavam com os olhos muito vermelhos.

Em menos de uma semana após o lançamento, Rubber Soul já alcançava o 1º lugar nas paradas, permanecendo por 12 semanas.  Nos Estados Unidos, o disco vendeu 1,2 milhões de cópias em apenas 9 dias após o lançamento. O disco americano recebeu o mesmo nome, mas não tinha a mesma seqüência de músicas. Além disso, o título na capa aparecia de outra cor.

Rubber Soul pode muito bem ser considerado o marco inicial do rock experimental. A referência às drogas e temas mais politizados marcam o início da fase progressiva, apresentada nos álbuns seguintes e o rock passa a ser usado como forma de expressão artística. A revolução estava apenas começando…

Leia análises anteriores:

– Help!

– Beatles For Sale

– A Hard Day’s Night

Por Edcarlos da Silva

17 Respostas para “O experimentalismo e a sofisticação de Rubber Soul

  1. Michelle, a segunda mais regravada, oe, não sabia!! Que bacana!! *-*

    Aiai olha que simples, a foto cai e fica distorcida, eles gostam, escolhem daquele jeito e meio segundo depois vem o titúlo do albúm, assim, do nada. Haha o.O

  2. muito bom esses post’s seus… não desvalorizando os outros é claro… Mais é muito bom, ler isso… e Michelle e In my life são música lindas (y)

  3. adoro Drive My Car… e não vo nem fala quando eu escuto Girl eu chego a arrepiar naquela parte
    “Ahhh girl shhhhhhhhhhhhhh”
    sobe um frio na espinha
    pra mim Rubber Soul foi revolucionario foi pra mim a melho faze deles depois de Revolver
    amooooo de paixão

  4. Muito bom o post.
    Adoro o Rubber Soul. É o tipo de disco que tenho que ouvir inteiro quando coloco uma das músicas.
    Só fiquei triste de saber que “What goes on” ficou meio esquecida… Porra, Ringo!

  5. Caramba… Eu achei que Something fosse mais regravada que Michelle… Fiquei surpreso…
    O mais legal desse disco é que ele começa a ter aquela unidade, um sentido para o disco inteiro. Não só mais um monte de singles compilados…

  6. Sobre “Michelle”, rapaziada, leiam o post: “A notável balada de Paul é a segunda música mais regravada no mundo”.

    É a segunda música DO PAUL mais regravada, não dos Beatles, nem da história. Esse segundo lugar pertence à nossa “Garota de Ipanema”, que só tem menos regravações que “Yesterday”.

    Ringo tocando Hammond é novidade pra mim. E o solo de “In my life” é de cravo, não de piano. Fora isso, belo post. Parabéns pelo blog.🙂

  7. Rubber Soul está no meu top 3, perdendo apenas pra Abbey Road e Revolver.

  8. Great, I loved. Ninguem segura mais voces.

  9. Pra mim a segunda mais gravada era Something :S

    Eu amo esse disco!

    Ahh, o Paul e o Ringo estão com o olho vermelho, o John não da pra ver e George não me pareceu, não…

  10. até onde eu sei, a segunda mais regravada é Garota de Ipanema… depois vem uma discussão enorme..

    My Way do Frank Sinatra, Feelings do Morris Albert (brasileiro), Something dos Beatles, Imagine do John Lennon.. tudo ali empatado..

  11. é o meu album favorito, me identifico demais com as musicas *-*

  12. Eu achei que Something fosse mais regravada que Michelle… [2] ah, uma informação interessante é que George Martin não conseguia tocar o solo na velocidade normal da In My Life, então ele diminuiu a velocidade da fita à metade, gravou o solo, e aí acelerou de volta😀 ah, e eu li na The Beatles – Biography (Bob Spitz) que na verdade o título Rubber Soul vinha de uma opinião de algum bluesman sobre os Rolling Stones, que fala algo como “ah, vc sabe, eles são bons, mas aquilo é uma alma de plástico (Plastic Soul)”, e aí sim devido à foto distorcida d Bob Freeman, eles decidiram chamar o álbum de Rubber Soul (:

  13. Ó… eu gosto dos Beatles com todas as minhas forças e evito dizer que gosto mais de uma música que de outra, de um Beatle que de outro, de um disco que de outro e taltaltal, mas… eu tenho que dizer que Rubber Soul é perfeito. A qualidade do som, das letras, de tudo é incrível. Foi o álbum deles que mais me viciei. Cheguei a ouvir direto por várias semanas (umas 3, acho), o dia todo, no ônibus, no trabalho, em casa.

    Por isso, acredito que seja o meu álbum favorito deles. Apesar de Eleanor Rigby, uma das minhas favoritas, aparecer em Revolver.

    E o blog tá de parabéns. Vocês alegram sempre nosso dia-a-dia com informações sobre esses 4 rapazes que mudaram e ainda mudam a vida de muita gente.

    Abração :*

  14. Edcarlos da Silva

    Aqui tem a explicação detalhada sobre o duelo “Michelle” vs “Garota de Ipanema”: http://bit.ly/9Es8wO

  15. Novidades Sobre os Beatles
    Segue abaixo endereço eletrônico de uma lojinha
    virtual de camisetas dos Beatles
    http://www.elo7/strawberryfieldsshop
    Aos cuidados de Antônio Barros

  16. Meu preferido! (se eu fosse obrigada a escolher um)

  17. Embora haja esta competição quanto a música mais regravada dos The Beatles, confesso que nunca ouvi o nome de nenhum artirta que tenha regravado “Somethings”, a não ser Jim Sturgess que gravou para o filme Across The Universe. Quem tiver nomes e puder postar eu fico feliz.

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