Beatles For Sale – Amadurecimento musical à beira do esgotamento físico

Com a explosão da Beatlemania em todo o mundo, o sucesso do filme A Hard Day’s Night, as exaustivas turnês e as apresentações em rádio e TV, o ano de 1964 estava sendo muito desgastante para os Beatles.

Apenas dois meses após o lançamento do terceiro álbum, a banda retornou aos estúdios Abbey Road para as primeiras sessões do novo disco. A essa altura, eles já não sentiam a mesma euforia dos meses anteriores e o cansaço era visível.

De 14 de agosto a 26 de Outubro de 1964, entre tantos compromissos, os Beatles produzem um novo disco para ser lançado no final do ano, aproveitando as vendas de Natal. Eles haviam concluído uma grande turnê que passava por vários países, como Suécia, Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia e Austrália; outra grande turnê norte-americana, com 31 apresentações em 32 dias; além das inúmeras apresentações em programas de rádio e TV no Reino Unido. Por isso, a banda precisou recorrer à velha fórmula dos dois primeiros discos e além das 8 composições próprias, também incluíram alguns covers.

Vale lembrar que o terceiro disco, A Hard Day’s Night, foi produzido somente com canções de Lennon e McCartney, o que foi considerado como uma grande evolução para a banda. Por isso mesmo, a crítica esperava mais do álbum “Beatles For Sale”, que foi considerado um disco fraco, simplesmente comercial.

Essa afirmação seria verdadeira, não fosse o grande amadurecimento musical, apresentado principalmente nas composições de Lennon & McCartney. Letras autobiográficas, melodias mais complexas e arranjos influenciados na country music, apresentada por Bob Dylan.

No Reply – (Lennon/McCartney)
Gravação: 30 de Setembro 1964

O disco começa direto com a voz de John, sem introdução instrumental. George e Paul fazem os backing vocals e o piano é tocado por George Martin. John Lennon a compôs para o grupo “Remo Four”, que gravou a canção, mas nunca foi lançada.

I’m A Loser – (Lennon/McCartney)
Gravação: 14 de Agosto 1964

Composição de John, inspirado nas letras de Bob Dylan. Além do vocal principal, John Lennon também toca harmônica (gaita de boca) e Paul ajuda nos backing vocals.

Baby’s In Black – (Lennon/McCartney)
Gravação: 11 de Agosto 1964

John e Paul cantam em dueto nesta canção de ritmo estranho e letra obscura, composta pelos dois, com participação maior de John.

Rock And Roll Music – (Berry)
Gravação: 18 de Outubro 1964

Este cover, cantado por John Lennon é considerado melhor até que a própria versão original, de Chuck Berry. Na gravação, Paul, John e George Martin dividem o mesmo piano neste rock and roll forte e super animado.

I’ll Follow The Sun – (Lennon/McCartney)
Gravação: 18 de Outubro 1964

Linda canção, composta por Paul quando ainda tinha 16 anos e sua turma de escola fez um passeio no campo. Alguns trechos foram alterados para a gravação, mas a maior parte da canção foi mantida.

Mr. Moonlight – (Johnson)
Gravação: 18 de Outubro 1964

John faz o vocal principal na canção que já havia sido gravada em 1962 pelo grupo “Dr. Feelgood & the Interns”. Paul, além do contra baixo, também toca um órgão Hammond e George, além da guitarra, toca um tambor africano.

Kansas City / Hey, Hey, Hey, Hey! – (Leiber/Stoller)
Gravação:18 de Outubro 1964

Dois sucessos que Little Richard já apresentava como medley em seus shows. Paul também cantava desse jeito e a gravação foi feita assim como a banda já tocava, acrescentando George Martin ao piano.

Eight Days A Week – (Lennon/McCartney)
Gravação: 06, 18 de Outubro 1964

Um dos grandes sucessos do disco, composto em parceria por Paul e John. O “fade-in” da introdução (som que começa em um volume mais baixo e vai aumentando aos poucos) foi considerado uma das inovações da banda, utilizado posteriormente por tantos outros músicos. Na verdade, os Beatles estavam começando a experimentar os recursos dos estúdios de gravação. O vocal principal é de John. Paul faz os backing vocals.

Words Of Love – (Holly)
Gravações: 18 de Outubro 1964

Belíssima interpretação da canção de Buddy Holly, cantada por John e Paul. A perfeita harmonia vocal transforma a música em uma das melhores gravações do disco e confirma o bom gosto que os Beatles tinham também para a escolha dos covers.

Honey Don’t – (Perkins)
Gravação: 26 de Outubro 1964

Cover de Carl Perkins (que estava presente no estúdio durante a gravação), cantado por Ringo. A música já fazia parte do repertório dos Beatles desde os tempos de Hamburgo. Mas naquela época, John Lennon era quem cantava. Ela foi escolhida por Ringo, por se enquadrar em seu estilo e limite vocal, mantendo o costume de cada disco trazer uma canção interpretada pelo baterista.

Every Little Thing – (Lennon/McCartney)
Gravação: 30 de Setembro 1964

Perfeita harmonia vocal de John e Paul. Ringo toca tímpanos, além da bateria e Paul toca piano, além do contra-baixo.

I Don’t Want To Spoil The Party – (Lennon/McCartney)
Gravação: 29 de Setembro 1964

Country composto e cantado por John, que dizia gostar muito dessa música. Paul também ajuda nos vocais.

What You’re Doing – (Lennon/McCartney)
Gravação: 26 de Outubro 1964

Uma das poucas composições de Paul no ano de 1964. George Harrison usa sua Rickenbacker de 12 cordas e o piano é tocado por George Martin. A canção começa só com uma linha de bateria de Ringo que é repetida no final da música.

Everybody’s Trying To Be My Baby – (Perkins)
Gravação: 18 de Outubro 1964

Carl Perkins estava presente nos estúdios quando os Beatles gravaram esta canção e ficou muito satisfeito com o resultado. George faz o vocal e a guitarra solo deste cover gravado originalmente por Perkins em 1958.

Durante as sessões de “Beatles For Sale”, eles ainda gravaram “I Feel Fine” e “She’s a Woman”, lançadas em um single em novembro de 1964.

“Beatles For Sale” foi lançado em 4 de Dezembro de 1964 e foi o quarto álbum da banda em menos de dois anos. Na capa, os Beatles pousam no Hyde Park (Londres) com rostos cansados. A foto foi feita por Robert Freeman, que já havia fotografado para a capa de “With the Beatles”. O título do disco é uma referência ao comércio que havia em cima da imagem da banda.

O álbum alcançou o topo das paradas em 28 de dezembro, tirando A Hard Day’s Night, que estava há 21 semanas em 1º lugar. Apesar de ser considerado um disco “mais fraco” que o anterior, “Beatles For Sale” permaneceu na primeira posição por 9 semanas.

O LP trazia ainda um texto de Derek Taylor (jornalista que se tornou assessor de imprensa dos Beatles), prevendo que no futuro, se alguém perguntasse quem foram os Beatles, bastaria tocar algumas faixas desse disco para que a pessoa entendesse a importância da banda. Outro trecho do texto dizia: “Os jovens do ano 2000 sentirão muito mais bem-estar do que já sentimos hoje, porque a mágica dos Beatles, suponho, não tem limite de tempo nem de idade. Ela venceu todas as barreiras e acabou com todas as diferenças entre raças, idades e classes. É venerada por todo o mundo”. Não sabemos o que os jovens dos anos 60 pensavam sobre isso, mas com certeza, hoje vemos que Derek Taylor estava certíssimo!

Leia análises anteriores:

– A Hard Day’s Night

– With The Beatles

– Please Please Me

Por Edcarlos da Silva

8 Respostas para “Beatles For Sale – Amadurecimento musical à beira do esgotamento físico

  1. Estava mesmo pesando sobre esse texto do Derek Taylor no sábado. Beatles está aí até hoje com novos fãs a cada dia. Sem dúvida, um disco excelente🙂

  2. “Os jovens do ano 2000 sentirão muito mais bem-estar do que já sentimos hoje, porque a mágica dos Beatles, suponho, não tem limite de tempo nem de idade. Ela venceu todas as barreiras e acabou com todas as diferenças entre raças, idades e classes. É venerada por todo o mundo”.
    Derek Taylor, 1964

    Essa podia ir pro hall das frases notórias sobre os Beatles..

  3. Muito muito muito bom, explicaram não só detalhes do disco, mas também o contexto em que ele foi gravado e composto, bom mesmo (:

  4. Na capa, George está com cabelo de rabanete, por causa da pontinha ali, o John que fala isso, nos videos dos remasters…

    Rock And Roll Music Uiaaa os três no piano!!

    I’ll Follow The Sun – tenho escutado muito ultimamente.

    Os jovens do ano 2000 sentirão muito mais bem-estar do que já sentimos hoje, porque a mágica dos Beatles, suponho, não tem limite de tempo nem de idade. Ela venceu todas as barreiras e acabou com todas as diferenças entre raças, idades e classes. É venerada por todo o mundo”. Não sabemos o que os jovens dos anos 60 pensavam sobre isso, mas com certeza, hoje vemos que Derek Taylor estava certíssimo! Muito certo, sou prova disso 8D

  5. Amoo todas as musicas desse album, sou completamente fissurada por ele…. e Derek Taylor tah com toda a razão, os Beatles não tem mesmo limite de tempo nem de idade, é só ver quantas crianças de pelo menos 10 há 14 anos, são fãs do Fab Four… um exemplo:
    EUZINHA
    eles são completamente genios, e eu tenho certeza que daqui a uns vinte anos (se o mundo não acabar em 2012) ainda vamos ver varias novidades deles, e muitas crianças já naçeram com um destino:
    SER LOUCA POR ELES
    como todos nós, tantos os que escrevem, como os que seguem o Beatles to the People
    XOXOXO

  6. Sem dúvida a geração de hoje se sente muito envolvida na mágica desses 4 rapazes. Quanto mais conheço a história deles, mais me apaixono pelo trabalho de cada um e tenho mais vontade de conhecer mais e ouví-los sempre.

    Muito, muito, muito bom. Infinitamente maravilhoso😉

  7. Parabéns… Poucas vezes vi tamanha competência. Vocês, do Blog, são d+ !!!

  8. Great ….muito boa materia, isso mostra que BEATLES sera sempre BEATLES e que podemos contar com a força jovem de vocês 4 ever…he he he…informação nunca e demais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s